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segunda-feira, 15 de abril de 2024

Voltar atrás

    Na noite antes de deixar El Kelaa estava a sentir-me sozinho, nervoso de recomeçar, de voltar ao desconforto, de acampar. Do calor das tardes e da solidão das noites.


    Conheci o holandês Joost e a mãe enquanto sentia isto. Não havia luz, falámos iluminados pela lanterna do telemóvel refletindo numa garrafa de água. Ele tinha sido voluntário na escola há 3 anos e voltou para visitar o pessoal. Ficaram no apartamento e estivemos a conversar bastante, ele já tinha viajado bastante, muitas vezes através do Workaway. Foi a distração que precisava.



    De manhã faltou a água e demorei a arrumar tudo. Parecia sempre que faltava alguma coisa. Desta vez tentei colocar a maior parte do peso nos alforges da frente, tinha lido que era uma melhor forma de fazer a distribuição da carga dado que a metade de trás da bicicleta já me carregava a mim. Apertei uns parafusos e ia colocar óleo na corrente só que entornei metade do frasco para o chão da rua, deixando-o escorregadio. 


    Saí não sem antes me despedir do senhorio e de ver a sua cara de dúvida quando lhe disse até onde pretendia ir naquela bicicleta. Falámos um pouco mais do que o normal, que era ele a reclamar que eu fechava a porta do prédio com muita força.


    Estava muito calor mas rapidamente libertei todas aquelas inseguranças e medos que na noite anterior me dificultaram o sono. Estava a adorar! Estava de volta!







    Parei numa pastelaria para comprar uns bolos e numa fonte para encher as águas, agora viajava com um bidon de ciclismo - que já tinha - e uma garrafa de sumo de laranja. Porquê? Porque alguém devia precisar urgentemente de uma garrafa de ciclismo ao sair das aulas de inglês e resolveu levar o meu, que habitualmente trazia na bicicleta quando ia para a escola.

Ia na estrada para Marraquexe quando um carro me ultrapassa e para a cerca de 100 metros. De lá sai o Aniss, que era o professor de alemão na escola onde eu estivera a ensinar ingles - quando ficava até tarde na escola para usar o wifi, ele estava sempre por lá e conversávamos um pouco. Perguntou se eu ia para Marraquexe e disse que podíamos combinar um café por lá. Tentei explicar-lhe que não tinha onde ficar e que por isso talvez não fosse possível, mas não sei se entendeu onde eu queria chegar. (Mais tarde mandei-lhe mensagem, sendo mais explícito, mas não foi entregue porque ele não tivera conexão e só me respondeu no dia seguinte a dizer que era na boa ficar em casa dele… só que eu já tinha passado Marraquexe!).



    

    A meio do caminho, com cerca de 30km, parei para comer uma sandes de espetadas numa vila à beira da estrada. 1,5€. Segui caminho mas começou a fazer muito calor, pelo que me decidi a descansar no melhor sitio que encontrasse. Esse melhor sítio que encontrei foi a sombra de um café em Ras El Ain Rehamena, onde estive a comer uns croissants que trazia e a beber muita agua. Segui e doía-me a cabeça. Procurei onde acampar e resolvi sair da estrada principal. Encontrei uns terrenos delimitados por uns muros de pedra laranja onde me sentei a cozinhar e a ouvir o podcast watch.tm. Ainda era de dia, pelo que esperaria até ser mais tarde para montar a tenda. 




    Já o sol se estava a pôr e apareceram 3 rapazes. Comecei a sentir que não tivera sorte no lugar que escolhera, mas apenas me perguntaram se precisava de algo, se queria água ou comida. Eram irmãos e tinham vindo para aquela terra agora nos feriados do Eid. Ali viviam os seus avós. Jogámos um pouco de futebol juntos, ajudaram-me a montar a tenda, trouxeram-me água e ainda voltaram já de noite com a sua mãe que queria ter a certeza de que eu não precisava de mais nada.






    Durante a noite ainda apareceu um carro a inverter a marcha naquele terreno, acordando-me e mantendo-me alerta. Acabou por ser uma noite tranquila mas em que não dormi muito. Levantei-me pelas 6h15 da manhã, comecei a arrumar as coisas e vi ao longe balões de ar quente que subiram para ver o nascer do sol.








    Segui estrada fora até Marraquexe, levantei dinheiro e continuei em direção a Agafay. Foi giro ver turistas outra vez e acenar-lhes. Meti por uma estrada depois de Agafay que me levaria a Imintanout. Já passava do meio dia e não havia nada nem ninguém. Adorei este percurso! Eventualmente ficou demasiado calor e arranjei o sítio perfeito para a cama de rede.



    Pouco depois sou acordado por passos, mas era um rapaz num burro que se aproximava. Pediu-me dinheiro. Disse-lhe que não. Ofereci água e umas bolachas que guardou sem comer. Voltou para um aglomerado de casas que se viam ao longe e uma hora depois regressou com outro rapaz mais pequeno e mais novo, com uma bandeja de couscous e um jarro de leite que devia ser de cabra. Disse que era para mim e eu convidei-os a comerem comigo mas não quiseram. No final, vi os dois rapazes aos segredos um com o outro e o mais novo a tirar uma moeda de 1 dirham do bolso enquanto se ria. Rapidamente entendera a situação, mas esperei que demorassem a voltar a pedir-me dinheiro.


    Neste caso, pareceu-me justo dar alguma coisa e dei as duas moedas que tinha na carteira. Quando se iam embora apercebi-me de que estavam a discutir e que o mais velho estava a tentar tirar o dinheiro ao mais novo, vindo-me pedir mais ainda. Quando já se tinham afastado ouvi ao longe o mais pequeno a chorar. Não entendi completamente a situação, não percebi se era aquilo que os pais queriam deles, o que fariam com o dinheiro, …



    Descansei mais um pouco e deixei o calor passar. Molhava a roupa toda com água e 5 minutos depois estava seco. Assim que voltei ao caminho, senti que alguma parte da bicicleta tinha folga porque ouvia o som de algo solto e não era o abanar dos sacos ou o normal agitar provocado pelas várias pedras do solo. Parecia-me que o problema vinha da peça nova que colocara em El Kelaa, porque sentia a folga quando abanava a bicicleta através do guiador.

Comecei a desapertar o guiador, o avanço, tudo naquela região da bicicleta. O Sol a começar a querer esconder-se eu no meio do deserto, a suar, com fome e sede e ainda a uns 20km da vila a que pretendia chegar. Não consegui resolver nada nem perceber qual era realmente o problema e isso ainda me deixou mais ansioso. Decidi-me a seguir caminho, não convinha ficar ali sem água e naquele estado.


    Ao longe uns rapazes que vinham do meio dos montes devem ter-me distinguido através do vermelho das minhas malas que contrasta com o branco e castanho das pedras e areia. Vieram a correr na direção do caminho por que passaria, mas agora sabia que não queriam apenas um “mais cinco”, iam-me pedir dinheiro e começar a correr atrás de mim - e foi isso que fizeram ao passar por eles ignorando as suas tentativas de me fazer parar. Estes momentos provocam um pico de adrenalina porque nunca sei o que decidirá um miúdo de 7 ou 8 anos fazer se o que lhe ensinam é a pedir dinheiro e correr atrás dos turistas que vir. O Anthony, alemão que conhecera na minha primeira semana em Marrocos, disse-me que crianças lhe atiraram pedras e tentaram roubar-lhe o casaco ao passar em algumas aldeias nas montanhas.


    Eventualmente cheguei ao alcatrão e sentia-me ansioso e nervoso por tudo o que se passara no final da tarde: o problema da bicicleta, os miúdos, o calor, o não ter água,... e amaldiçoava isto enquanto passava à frente de um olival com uma casa rosa em jeito de castelo. Resolvi entrar, primeiro com a ideia de pedir água e depois, se a pessoa reagisse bem, perguntar se podia acampar.



    

    Não encontrava ninguém. Umas galinhas passeavam livremente, dois pavões e uns patos, até que oiço chamar da casa rosa e vejo um homem, o Mohammed, sentado num cadeirão em cima do telhado. Aponto para a garrafa e ele faz sinal de que viria rapidamente. Quando chegou perto de mim já vinha ao telefone com a sobrinha que vivia em França para que ela traduzisse o que eu dissesse. Foi através deste método que lhe perguntei se podia ficar ali nessa noite, ao que ele respondeu que poderia ficar o tempo que quisesse, que podia acampar ou ficar dentro de casa. Montei a tenda no rooftop e tentei durante algum tempo perceber outra vez qual era o problema da bicicleta. Desisti e fui-me juntar a ele para ver o pôr do sol. Não conseguíamos comunicar muito, mas ficámos ali cada um com os seus pensamentos até que escureceu.

Fui cozinhar o meu couscous na cozinha e o Mohammed entretanto foi à vila. Deixou-me completamente à vontade 


        - This house… is you. - e apontou para mim, querendo certamente dizer que me podia sentir em casa.


    Quando voltou trazia um saco cheio de comida para mim: noodles, bolachas, atum em lata, pacotes de nescafé. Depois, ainda foi colher um abacate para eu comer e apareceu com um alguidar com água quente ao qual juntou sal, onde me disse para colocar os pés para ajudar a relaxar. Tratamento VIP!



    De manhã, depois de arrumar quase tudo, tentei mais uma vez perceber de onde vinha o problema e se o conseguia resolver. Decidi-me a apertar todos os parafusos da bicicleta, talvez algum estivesse solto. Não estava a ter efeito e começava a perder a esperança. Sentei-me no chão com todas as minhas ferramentas e sacos espalhados. Não sabia o que fazer e sentia-me esgotado, fiquei ali bastante tempo sem pensar em nada. Durante estes pensamentos fui interrompido pelo Mohammed que me chama para tomar o pequeno-almoço com ele. E um verdadeiro pequeno almoço! 




    Voltei à bicicleta e finalmente percebi que a folga vinha da roda de trás, que mesmo depois de apertada continuava a mexer-se. Sentia-me mais aliviado por não ser da peça nova, certamente teria arranjo. Ainda assim, falei com o Pedro Bento que me ajudou a identificar o problema e a perceber o que fazer. Então, como já eram 14h escolhi ficar ali aquela noite e no dia seguinte partiria para Marraquexe, a fim de reparar o problema o quanto antes. Durante este processo, o Mohammed foi e voltou à fila e começou a cozinhar um arroz incrível que comemos a ouvir Zeca Afonso. 



    Durante a tarde, como não tinha que fazer, limpei o chão e alguns móveis daquela pequena divisão. Tive de arranjar algo com que me entreter. Talvez por causa da barreira linguística, não percebi que o Mohammed não voltaria nessa noite e que dormiria em Marraquexe junto da família. Durante toda a noite, enquanto ouvia as músicas e podcasts que tinha descarregado, esperava que ele chegasse, mas só chegou na manhã seguinte com vários bolos e comida para o pequeno-almoço. 


    Saí pelas 10h30 em direção a Marraquexe. Parte das coisas levei comigo, o equipamento de campismo e de cozinha deixei lá, passaria por ali na volta. A minha ideia era ir e vir no mesmo dia, mas quando cheguei à loja de bicicletas disseram-me que como era domingo não haviam mecânicos ali e teria de esperar até hoje. Fiquei num hostel e andei pela cidade, é bem diferente durante e depois do Ramadão. Tem mais vida e gente, há mais bancas de comida e turistas.

    

    O Oscar, um inglês que viera de bicicleta até Marraquexe, era o mecânico e tratou de pôr a bicicleta a funcionar e dar-me algumas recomendações. Vou voltar à estrada!

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